Que Crises Vivemos como Mulheres Cristãs?

mulher desempregada
Bem sabemos que apesar de nos termos comprometido com Cristo, não ficamos isentas de vivermos crises. A Bíblia nos fala de “um tempo para todo o propósito debaixo do céu... tempo de derribar e tempo para edificar... tempo de chorar e tempo de rir... tempo de abraçar e tempo de afastar-se... tempo de buscar e tempo de perder.... (Ecle. 3:1-8).”



O nosso Mestre Jesus viveu momentos de crises e angústias ao longo de seu ministério entre nós, um dos quais mais evidenciados é o de que sua forte depressão no Getsêmani, vemos aí Jesus dizer: “A minha alma está profundamente triste até a morte; ficai aqui e vigiai comigo.” (Mat. 26:28) Não podemos sentir-nos culpadas e espiritualmente fracas, quando nos assaltam angústias e pesares; não devemos esquecer o que também Jesus nos diz a cerca do que viveríamos aqui no mundo: ”... No mundo passais por aflições; mas tende bom ânimo, eu venci o mundo” (João 16:33). Em outras palavras, ele nos diz: “Queridos, vocês vão passar por crises, mas não desistam; eu estarei com vocês!” Na verdade, cada mulher cristã a partir de sua experiência única e pessoal com Cristo; vivencia, como pessoa, inúmeras e distintas crises, ao longo de sua vida. Certamente não as poderíamos catalogar. Podemos contudo discorrer sobre crises que parecem fazer parte do nosso processo de vida, e que refletir sobre elas certamente será possível e esclarecedor para cada uma de nós.

1 – A Crise de Identidade

Parece que esta é a nossa primeira grande crise como pessoa: crise de identidade.
Como nos percebemos cobradas as presas a estereótipos, ou seja, a prescrições de como devemos: pensar, agir e viver, a partir de padrões preestabelecidos e nem ao menos nos damos conta do que realmente queremos!
Será que, por sermos mulheres não podemos jogar bola de gude e subir em árvores? Teremos sempre que brincar de bonecas e panelhinhas?
Será que teremos que ser professoras, enfermeiras, e quaisquer outras ditas profissões femininas, quando a elas temos direito?
E casar? Será que queremos? Ou teremos que fazê-lo, haja vista a expectativa social para isto? Ao nos casarmos, teremos que sair para trabalhar fora, para nós “modernizarmos”, não podendo escolher ficar em casa com as crianças e a manutenção do lar?
Teremos também que, se escolhermos o exercício de uma profissão, abdicar desta pois a mulher deve esperar os filhos crescerem?
Essas questões angustiam enormemente a vida das mulheres. E tudo parte de um ponto principal: Esquecemo-nos de ser fiéis aos nossos planos, desejos e valores, passando a viver em função do que se espera de nós, e não daquilo que realmente somos.
Essa realidade é muito triste para mulheres cristãs, que têm um Deus que “sonda os corações”, e bem sabe o que realmente sentimos e desejamos, embora finjamos muitas vezes, por medo.

2 - As Grandes Crises de Perdas

a. A Perda da Vitalidade ou Crise da Meia-Idade

Se há “tempo de perder e tempo de ganhar...” não deveríamos sofrer tanto, quando o corpo começa a dar os seus sinais de envelhecimento: rugas, flacidez, cabelos brancos, menopausa, cansaços, e alguns outros sinais de que já não somos mais tão rápidos e joviais quanto antigamente.
A bem da verdade, porém, nós, mulheres, nos abalamos muito quando esses sinais se mostram sobre nós. Eles coincidem, no mais das vezes, com um difícil período existencial.
Algumas mulheres que nunca resolveram suas questões de identidade – a maioria nem se deu conta que tinha – se vêem obrigadas agora a entrar em contato com angústias e dissabores do tipo: “E agora? O que fazer? Já não sou tão necessária à vida doméstica! Os filhos cresceram, a vida se modernizou, o tempo passou, e eu, o que fiz?”
Juntamente com tantas questões e dores vem a dolorosa sensação de não haver mais tempo. Já é tarde para mudar tudo isso.
Talvez seja essa uma das maiores crises da mulher, pois transtorna seus referenciais, bem como relacionais: ”Será que valeu tudo isso, se todo mundo me deixou agora?”
Sobre-tudo os referenciais corporais; a feminilidade se encontra ameaçada, a mulher já não se sente atraente, viçosa, e às vezes sente que como já não menstrua, nem mulher é mais!

b. A Crise da Enfermidade ou Perda de Saúde

Sabe-se hoje, com o advento da medicina psicossomática “aquela que não cuida só da doença, mas também de toda a vida da pessoa), que as nossas doenças são, na maioria das vezes, o reflexo de nossas insatisfações e infelicidades.
Há estudos hoje comprovando que o alto índice de câncer em colo de útero (no Brasil é o que mais vitima as mulheres) e nas mamas, está associado a conflitos existenciais fortíssimos vivenciados por suas portadoras.
Podemos notar que o câncer é uma doença degenerativa interna, e não deve ser gratuito o fato de os homens sofrerem mais “ataques cardíacos”; eles são a expressão externa do conflito ao passo que o câncer se processa”silencioso, devagar e sempre”, internamente.
Adoecer é, antes de tudo, uma crise que funciona como febre: ela nos dá o sinal de que há algo errado dentro de nós que precisa ser resolvido e debelado, muito mais do que tomar um analgésico e passar a febre, sem tratar da infecção de base. Uma atitude assim pode ser fatal e nos levar até a morte.
Numa doença, deveríamos procurar as causas orgânicas, mas bem mais que isso, as causas existenciais: “Como andam os meus afetos, a minha vida?”

C – A Crise dos Rompimentos

Também sabemos a ferida aberta que fica em nós, quando, a respeito do quanto desejamos o contrário, vemo-nos obrigadas a romper com pessoas que amamos: marido, filhos, parentes, amigos...
A crise desencadeia uma sensação de morte em nós sempre que rompemos com alguém. Às vezes essas pessoas se afastam de nós porque não vivíamos bem, e isso também dói; assim como os que deixam de estar conosco em vida, seja por uma interrupção abrupta (acidente, fatalidade) ou pelo processo natural da vida: nascer, cresce e morrer, isso dói demais.
Essa sensação de não agüentar mais viver, a partir dessa separação, se não puder ser estancada, poderá fazer de nós verdadeiras mortas em vida.

E Para que Servem as Crises?

Quando cremos que “todas as coisas contribuem juntamente par o bem daqueles que amam a Deus” – (Rom. 8:28), podemos seguramente concluir que as feridas, abertas com as diferentes crises que vivemos, certamente poderão contribuir para o nosso bem.
Não sejamos ingênuas e pouco verdadeiras, tentando enganar-nos dizendo que “ter crise é bom”. Não é. É muito difícil e duro viver uma crise, é muito doloroso e sofrido o processo; porém, até aonde ela pode nos levar, isso sim será o seu grande valor.
Do ponto-de-vista existencial e filosófico, com as crises temos a oportunidade de crescer e de nos libertarmos, sobretudo de prisões ocultas que tínhamos e não nos dávamos conta, até o momento de vivermos uma crise.
Se formos suficientemente corajosas, a ponto de não fugirmos das crises, certamente poderemos crescer e fazer crescer com elas.

Como ser “Mais do que Vencedora” Numa Situação de Crise?

Em psicologia diz-se que nós temos basicamente três caminhos para enfrentarmos nossos conflitos, nossas crises.
O primeiro caminho, e talvez o mais usual, é o da negação. Observamos que pra nós, mulheres crentes, esse caminho não é muito difícil de ser trilhado. Presas aos vários momentos, cargos, reuniões e compromissos eclesiásticos, ufa!; não temos tempo de viver as crises! E com isso negamos que estamos mergulhadas nelas, talvez de maneira tão profunda que não seja possível encará-las. Devemos lembra-nos que Deus nos fez “a sua imagem e semelhança”, perfeitos; portanto, não estranhe quando seu corpo não agüentar mais e explodir; oxalá, ainda seja possível tratá-lo.
Outro mecanismo face às crises, também bastante usual em nosso meio, e não menos destrutivo, é o da fuga. Ah! Como ouvimos irmãs nossas dizendo” que assim que começam a ter vontade de chorar, procuram rapidamente algo para mudar isso, pois a gente não pode se entregar!” Com isso passamos a maior parte do tempo fugindo de nós mesmas, como ratos rolando atrás da cauda. Essas pessoas dificilmente admitem ficar alguns momentos sozinhos; têm verdadeira fobia disso.
Há contudo um terceiro modo de lidarmos com as crises, e esse certamente é o mais difícil, porém seguramente é também o único que nos poderá fazer crescer. É o de nos CONFRONTARMOS com nossas crises, dores e insatisfações.
Lembrem-se as irmãs da crise de Ana, a mãe de Samuel” Ah! Faço questão de lembrá-las. Ana foi tão corajosa e mergulhou tão fundo e sua dor, que quando o Sacerdote Eli a viu no templo exclamou “Até quando estarás tu embriagada?” (Sam. 1:14). Pois é, se nós tivermos a coragem de Ana, certamente passaremos momentos de dor, de imensa dor, de desorientação.
A partir desse confronto com sua crise, contudo, Ana podia dizer, com toda a verdade de seu coração: “Não, Senhor meu, eu sou mulher atribulada de espírito; não bebi nem vinho, nem bebida forte; porém venho derramar a minha alma perante o Senhor.” (v.15)
A resposta de Eli pode ser a resposta de Deus, se nos confrontarmos com nossas crises: “Vai-te em paz, e o Deus de Israel te conceda a petição que lhe fizeste”. (v.17)
Irmãs, oxalá Deus nos fortaleça, a tal ponto que não precisemos fugir ou negar nossa dor, mas enfrentá-la, se necessário for, tal qual Jesus no Getsêmani, peçamos ajuda a Deus e aos homens. Jesus orou, pediu ajuda a Deus, mas não preferiu fazer isso sozinho: “... ficai aqui e vigiai comigo”, ele pediu ajuda também aos homens.
Que Deus nos inspire e ilumine, quando precisarmos desse outro que pode ser: uma amiga, um parente, o pastor ou até um conselheiro.
FONTE: Revista Visão Missionária 3T90